F1: Grande Prémio 1 000 – A Minha Primeira Memória

A Fórmula 1 chega ao Shanghai International Circuit para o Grande Prémio 1 000. Qual é a tua primeira memória deste desporto? João Carlos Costa, Pedro Nascimento e Daniel Costa contam-nos a sua!

Por Diogo Santos

Poderíamos recordar o primeiro Grande Prémio em 1950. Poderíamos ficar a falar das 322 corridas de Rubens Barrichello, das 91 vitórias e dos 7 títulos de Michael Schumacher, das 160 corridas de Nico Hulkenberg sem nenhum pódio e das 58 de Lucas Badoer sem qualquer ponto, das 68 largadas em Monza em 69 possíveis ou das 4h04 que durou o Grande Prémio do Canadá em 2011. Os recordes são muitos, as histórias também. Por isso, puxámos à nossa sardinha três ilustres convidados, de três gerações distintas: João Carlos Costa (comentador no canal Eurosport desde 1996 e actual comentador da modalidade na Eleven Sports), Pedro Nascimento (comentador Sport TV, que narrou este desporto entre 2012 e 2018) e Daniel Costa (treinador de basquetebol no Carnide Clube e um fã assumido de Fórmula 1). Convidámo-los a contarem-nos a primeira memória que têm da Fórmula 1.

João Carlos Costa:

  • A F1 numa palavra: velocidade!
  • Comentar a F1: adrenalina!

Lembro-me bem. Estava na 3ª classe, no Colégio Príncipe Perfeito, em Lisboa. Tinha 8 anos e ganhei a minha primeira corrida com um F1. Não se podiam levar bolas para o recreio, mas os carrinhos não estavam proibidos. Os jogos “da bola” eram substituídos por corridas de “manguça”. Comia à pressa para ter mais tempo de recreio. Improvisava-se a pista com as molas que caiam das cordas da roupa dos andares superiores do prédio. No bolso estava sempre o Ferrari 156 “shark-nose” da Corgi Toys que a tia Manuela tinha trazido de Londres. Era uma espécie de jóia da coroa, o único das “corridas”, com número e tudo (36), face a outros, que não eram carros de competição. Vá se lá saber porquê, o meu piloto era sempre o… António Peixinho! Era o tempo da descoberta do Desporto Automóvel. Os primeiros Grandes Prémios da RTP, comentados pelo Joaquim Felipe Nogueira. As emoções da velocidade, numa altura em que os carros de série eram infinitamente mais lentos, quando comparados com os F1.

O Ferrari 156 “shark-nose” da Corgi Toys.

A construção de uma paixão alicerçada em revistas de automóveis e corridas de carrinhos. Era nelas que projectava ver um Grande Prémio ao vivo. Tive de esperar seis anos, até 1976. Tinha 13 anos. Fui com o meu pai numa viagem de trabalho a Espanha. Estávamos em Madrid no sábado do G.P. de Espanha, em Jarama. Não me recordo como, conseguimos bilhetes/convites para a qualificação. Era a prova onde os F1 perderam as “chaminés”. Mais importante ainda, onde a “minha” Tyrrell estreava o P34 de seis rodas, guiado por Patrick Depailler, de que era grande fã, ou não tivesse sido “educado” com revistas francesas. Fiquei de boca aberta quando o vi passar pela primeira vez, a caminho do terceiro lugar da grelha, atrás de Hunt e Lauda. Já tinha assistido a corridas no Monsanto, no Estoril e em Vila Real, para além de alguns “TAP”. Mas os F1 eram outro mundo. A velocidade na recta, mais que outra coisa, algemou-me a uma “prisão” perpétua. Recordo-me que, ao fim da tarde, na continuação da viagem que nos levou a Bilbao, fechei os olhos e imaginei que a carrinha Peugeot 404 Diesel se tinha transformado no P34, qual abóbora da Cinderela em coche de luxo. Acho que ainda não acordei desse sonho. E tenho a certeza que encontrei um “amor” para a vida.

Patrick Depailler guiando o Tyrrell P34 em Espanha, 1976.

Pedro Nascimento:

  • A F1 numa palavra: futuro!
  • Comentar a F1: desafio!

Tenho memórias muito desconexas de corridas de Fórmula 1 de 1980, o ano em que Alan Jones foi Campeão do Mundo com o Williams branco e verde, que tinha um muito peculiar patrocinador: Saudia. Arábia Saudita, petróleo, família Bin Laden, enfim, só mais tarde descobri isto tudo e realizei o significado que teve (se é que teve…). Tinha seis anos. Um ano mais tarde, aos sete, lembro-me do primeiro título mundial do senhor Souto Maior, o carioca que aprendi a admirar, o primeiro que idolatrei (e o único que idolatrei) num desporto que ainda só estava a descobrir, acima de tudo porque adorava aquele Brabham que ele guiava, branco e azul, de biquinho sem asa (em 1981, a asa já tinha “bigode”). Aquela combinação, com o capacete vermelho e branco lá dentro: perfeita. Curiosamente, do imbróglio louco e absurdo que envolveu o Carlos Reutemann nesse ano tenho memória absolutamente nula – e foi a História que me contou, mais tarde, esses episódios rocambolescos em plenitude. Tudo isto são memórias vagas, dispersas, solidificadas numa extraordinária colecção de miniaturas Majorette que o meu pai me arranjou e que foram o meu brinquedo de estimação até ser adolescente. Devia dizer “adulto”, mas prefiro mentir para ninguém ficar com a ideia que um cidadão com idade para conduzir e comprar bebidas alcoólicas ainda se entretinha com miniaturas de carrinhos de Fórmula 1…

Essas miniaturas não resistiram, infelizmente, para as passar para o meu filho. Mas estão ligadas à história do primeiro Grande Prémio de Fórmula 1 que me lembro de acompanhar, na íntegra – e por defeito profissional, até me lembro dos comentários televisivos!

Alan Jones guiando o Williams no Canadá, em 1980. (C) Ford Motor Company

Numa tarde de Junho de 1982, numa velhinha TV a preto e branco, no meu quarto, assisti à partida para o Grande Prémio do Canadá – ainda a meta era na recta do Casino, o que fazia da primeira parte da pista uma loucura desenfreada feita a fundo. Didier Pironi estava na pole e deixou o Ferrari ir abaixo quando o semáforo se apagou (acontecia muito, na altura). Vindo dos confins da grelha, Ricardo Paletti, num Osella, apenas no segundo Grande Prémio para o qual partia, acertou em cheio no Ferrari imobilizado. Ok… algum aparato, mais carros envolvidos, o nº33 do Geoff Lees, mais um Osella (do Jean-Pierre Jarier), mas não parecia nada de mais. Até que o Osella se incendiou e começou a consumir-se em demoníacas labaredas potenciadas por aquele cocktail químico a que chamavam gasolina. Paletti ainda lá dentro, Pironi desesperado a tentar usar todos os extintores que tinha à mão para apagar o fogo. Tudo numa velhinha TV a preto e branco e eu ainda me lembro como se fosse hoje. A corrida foi interrompida claro.

Durante todo o tempo que demorou a evacuação e a limpeza da pista, sem desligar a atenção do que se passava, peguei num monte de canetas de feltro ensacadas dentro de um baú e entretive-me a desenhar, no chão do quarto, o circuito de Montréal (ainda não se chamava Gilles Villeneuve, que morrera semanas antes, em Zolder, num Grande Prémio do qual me lembro aproximadamente zero) tal e qual ele existia: boxes do lado das regatas de Remo, esses a seguir à meta e tudo a fundo do lado norte, até ao gancho. Não soube do destino trágico de Ricardo Paletti (falecera duas horas mais tarde, em resultado das lesões nos órgãos internos que sofreu com o trauma do acidente) até bastante tempo depois da corrida – é incrível, mas foi o último piloto a morrer num acidente durante um Grande Prémio de Fórmula 1 (na sequência de um, para todos os efeitos) até ao fatídico fim-de-semana de Imola, em Maio de 1994, estava eu a preparar-me para… começar a minha vida profissional.

Tudo aquilo que passava na velhinha TV a preto e branco durou mais de duas horas, e durante mais de duas horas eu fiz o meu Grande Prémio em miniaturas. Na pista, na realidade, Bruno Giacomelli fez o habitual e bateu contra outro piloto logo na primeira volta (acho que era o Nigel Mansell), mas o Alfa Romeo vermelho e branco que eu tinha na minha corrida era do Andrea de Cesaris. E, na realidade, no Canadá, o Andrea de Cesaris até fez uma das melhores corridas da vida dele e só não acabou melhor porque ficou sem gasolina (acontecia muito, na altura). No chão do meu quarto, o Andrea de Cesaris estampou-se contra umas canetas de feltro e não terminou a corrida.

Na realidade, o Grande Prémio do Canadá foi um aborrecimento dos diabos (acontecia muito, na altura). Setenta voltas sem grande piada, mas com carros que passavam depressa e dava muito gozo ver, mesmo na velhinha TV a preto e branco. Ganhou o Souto Maior, com 13 segundos de avanço sobre o Riccardo Patrese e mais de um minuto sobre o John Watson. Foi a única corrida de jeito que fez com o Brabham BT50, que ainda era lindo de morrer apesar do bigodinho, mas não andava nada que se aproveitasse. No chão do meu quarto também ganhou ele: Nelson Piquet Souto Maior. O meu primeiro ídolo na Fórmula 1 (e único que idolatrei) ganhou a corrida (acontecia muito, na altura) na velhinha TV a preto e branco e no circuito improvisado do meu quarto. Foi no Canadá, em 1982, o primeiro Grande Prémio que lembro de ter visto na íntegra – foi o Grande Prémio nº 365 da História dos campeonatos do Mundo de Fórmula 1. Caramba, já lá vai um tempinho…

Nelson Piquet liderando o Grande Prémio do Canadá, em 1982.

Daniel Costa:

  • A F1 numa palavra: drama!

Não queria esquecer nenhum momento, mas tenho ideia que o meu primeiro contacto com a Fórmula 1 é através do Michael Schumacher com o seu Ferrari Vermelho número 1.

O grande boom, aconteceu quando o meu pai entrou um dia em casa com o jogo Fórmula 1 2005, com o Tiago Monteiro na capa e o seu carro amarelo da Jordan. Foram horas e horas na tentativa de me manter em pista… Mas com o hábito lá fui triunfando, até aos dias de hoje na linha de jogos licenciados pela Fórmula 1.

Formula One 2005 com Tiago Monteiro na capa.

Acerca das transmissões de televisão, lembro-me do primeiro Grande Prémio que vi até ao fim. Grande Prémio do Mónaco 2005, ganho pelo Kimi Raikkonnen no seu McLaren-Mercedes (dos carros mais bonito de sempre, na minha opinião). Outro Grande Prémio que vibrei nessa minha fase precoce foi o de São Marino (desse mesmo ano) que teve uma épica batalha entre o Fernando Alonso e Michael Schumacher. A partir daí, fiquei apaixonado pelo Renault azul e branco e tornei-me fã do Fernando Alonso, até aos dias de hoje.

Fernando Alonso e Michael Schumacher lutando em São Marino, 2005.

Valtteri Bottas (Mercedes) lidera o campeonato de 2019 com um ponto de avanço sob o seu colega de equipa, Lewis Hamilton. Sebastian Vettel (Ferrari) precisa de dar uma pronta resposta, especialmente face à iminente ascensão do seu jovem colega de equipa, Charles Leclerc. O ‘segundo pelotão’ tem estado muito animado neste início de temporada, pelo que, espera-se que continue assim. Tudo isto e muito mais para acompanhar na Eleven Sports 3, com os horários disponíveis aqui.

Uma imagem vale mais que 1 000 Grandes Prémios! (C) Redit