Fórmula 1 ao rubro nos bastidores

Há falta de emoção na pista, a Fórmula 1 traz emoção aos seus fãs com uma silly season antes do tempo mas não menos interessante

Por Diogo Santos

Na Fórmula 1 quando uma peça se mexe, é como um dominó – várias peças mexem-se a seguir. E este ‘efeito’ estava anunciado – Eddie Jordan relançou para a praça pública a ideia de que Lewis Hamilton trocaria os tons acinzentados pelos avermelhados. E, quando a ideia começava a ganhar corpo, foi desmontada. Não pela peça que se mexeu – teria sempre de ser Sebastian Vettel. Mas sim pelas pretensões da Scuderia Ferrari.

Vamos por partes. Há largos anos que a Ferrari aposta em ‘campeões feitos’. Recuemos alguns anos. Michael Schumacher, em 1996, ingressou na Ferrari após sagrar-se bi-campeão na Benetton. Somou cinco títulos pela equipa de Maranello, fora os vários recordes que alcançou. Kimi Raikkonen sucede-lhe em 2007, sem nenhum título no bolso mas tornando-se campeão nesse mesmo ano. Surgiu depois Fernando Alonso, na altura já bi-campeão mundial, que não foi além de três vice-campeonatos em cinco temporadas. Entrou então Sebastian Vettel em 2015, penta-campeão, que teve por duas vezes o título na mão mas cedeu à pressão e acabou por perdê-los para Lewis Hamilton. Com a saída anunciada de Sebastian Vettel, a escolha natural seria Lewis Hamilton. Para além de ser um ‘campeão feito’ poderia fazer história ao igualar ou bater o número de títulos de Shumi e porque no actual contexto global, a Ferrari seria a única equipa a conseguir manter o elevado salário do britânico (poderá surgir aqui um problema a curto prazo entre Lewis Hamilton e a Mercedes).

Mas a história nem sempre se escreve por linhas rectas. A colisão entre a Ferrari e Sebastian Vettel acontece, segundo consta, quando a equipa quis renovar com este mas reduzindo o salário do alemão de 40 para 10 milhões. O penta-campeão não aceitou esse valor. Assim sendo, desta equação saem Lewis Hamilton (cerca de 50 milhões/época) e ainda Daniel Riccardo (cerca de 25 milhões/época). Valor esse perfeitamente razoável para Carlos Sainz Jr.. O madrileno recebe sensivelmente 3,5 milhões actualmente na Renault. Mais que o dinheiro, a fiabilidade do espanhol que, embora discreto, já deu várias provas do seu talento. Mostrou estar em pé-de-igualdade com Max Verstappen quando ambos eram colegas na Toro Rosso. Ingressou na Renault mas foi na Mclaren que alcançou o seu primeiro pódio da carreira na disciplina, mais concretamente em São Paulo. Terminou o campeonato num honroso sexto lugar. Agora na Ferrari espera-se que fique na sombra de Charles LeClerc, piloto da casa. Uma casa que vê no monegasco um futuro campeão, aposta tudo nele e prepara-se para investir (ainda mais) no carro. No final de contas, esta mudança deixa uma ‘sombra’ superior a 20 milhões de euros a favor da Ferrari.

Que futuro está reservado para Sebastian Vettel? Depois de falhar por duas vezes o penta quando tinha tudo para tal, o alemão deixou-se abater. Desmotivado, a permanência possível no circo da Fórmula 1 seria na Red Bull pois é a sua casa-mãe. Com 32 anos, seria a última oportunidade para Vettel reergue-se no desporto-rei do automobilismo. Mas com Max Verstappen e Alexander Albon de pedra-e-cal na equipa de Chris Horner, neste momento o mais provável é que o alemão esteja não só a fazer a despedida da Ferrari mas também da F1. No entanto, existe toda uma temporada por disputar, o cenário poderá alterar-se até lá.

Quem ficará com o lugar de Carlos Sainz Jr.? Surpreendentemente, todos os dados apontam para Daniel Riccardo. O australiano saiu da Red Bull em busca do contrato de uma vida mas parece que o dinheiro deixou de ser tudo e a saída da Renault é um cenário cada vez mais provável de acontecer. Com 30 anos, Riccardo quererá mostrar todo o seu potencial e a Mclaren, quem sabe, se não será a equipa capaz de lhe dar o carro ideal.

Surge então uma vaga na Renault. Quem será o companheiro de Esteban Ocon? À partida, dois nomes. Nico Hulkenberg (32 anos), que para lá de ser um piloto consistente (não fosse ele um vencedor das 24 Horas de Le Mans), conhece bem os cantos à casa. Por outro lado, Fernando Alonso (quase 39 anos) sempre manifestou o desejo de voltar à Fórmula 1. Apesar de ser um piloto caro, traz consigo muita experiência e a imagem deslumbrante que pode dar muitas manchetes à equipa francesa. Até porque, para além de ser um regresso, é um retorno à disciplina semelhante ao que Michael Schumacher fez em 2011 (então com 41 anos). Sergey Sirotkin (terceiro piloto), Stoffel Vandoorne e Esteban Gutiérrez (ambos terceiros pilotos da Mercedes) podem ainda entrar no campo de hipóteses, tal como algum piloto jovem, dos campeonatos de formação, nomeadamente da Fórmula 2. Será, à partida, o lugar que, vago, dará mais que falar.

A dança de cadeiras poderá não ficar por aqui. O finlandês Kimi Raikkonen (actualmente na Alfa Romeo), que superará este ano o recorde de Grandes Prémios de Rubens Barrichello (322), ainda não garantiu a sua continuidade em 2021. É ver para crer. Até lá, uma certeza: o campeonato de Fórmula 1 começará na Áustria, a 5 de Julho.

Diogo Santos escreve ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico