O tempo dos empata-fodas

Por Paulo André Cecílio     

A Nuno Espírito Santo não se pede que seja um Zezé Camarinha; basta não ser um Virgem aos 40.

 

Este é o tempo dos empata-fodas, diria Rimbaud se tivesse vivido o tempo suficiente para gostar de futebol, ou se por alguma mágica milagrosa se visse transposto para o século XXI, muito depois de Patti Smith fazer dele estrela póstuma com os seus próprios poemas em tons rock n’ roll. E utiliza-se a expressão chula porque nenhuma outra será capaz de descrever tão adequadamente aquilo em que se tornou a luta pelo primeiro lugar da classificação. Assim como nenhuma outra será capaz de descrever a época-actual do Futebol Clube do Porto, feita de preliminares atrás de preliminares… Sexo explícito é que nada.

Ainda existe, naturalmente, a fé virgem de que, existindo uma janela de oportunidade, concretizaremos finalmente os nossos planos e passaremos a ser homens. Só que o problema é mesmo esse: sermos virgens. Depois de exibições categóricas contra Nacional e Arouca, veio uma velha senhora colocar um ponto final nas nossas aspirações europeias – e nem sequer era uma velha senhora capaz de nos fazer corar, como Nina Hartley, ou uma matrona disposta a apontar-nos a porta do desejado quarto. Mas tal já era esperado; escusado foi o empate em casa contra o Vitória de Setúbal, pese o anti-jogo da turma sadina, e ainda para mais depois de tanta ejaculação precoce com o meio-tombo do Benfica em Paços de Ferreira. Vingança de Couceiro?

O jogo na Luz veio novamente expor as fragilidades de um FC Porto que, não obstante alguns óptimos resultados no campeonato, tarda em convencer. Por outro lado, também expôs as fragilidades da equipa que, por um direito qualquer divino, acha que deve ser tetra a todo o custo. Que se foda a selecção quando existe o Benfica, pensam eles, que se fodam os árbitros se não há penalties a nosso favor, idem idem. Por acaso, desta feita, houve um penalty. Bem assinalado, parece. Mas também houve uma chuva dourada de Xistra sobre o quarteto defensivo azul-e-branco, uma falta escandalosa sobre Corona que passou ao lado e um fora-de-jogo bastante mal tirado a Diogo Jota…

Claro que nada disto interessaria se Soares tivesse repetido a jogada do segundo golo contra o Sporting, no Dragão – infelizmente, encontrou pela frente um Ederson numa noite ligeiramente menos sim que a de Iker Casillas, que depois de tanta maledicência (nossa, e dos outros) já está a justificar a construção de uma estátua só sua nos Aliados ou, quanto muito, um Espaço Iker no museu do clube. Também não interessaria se o jogo tivesse sido à Porto durante 90 minutos, e não apenas desde o penalty até ao golo de Maxi. Que, com certeza, entrará no top 10 de golos que mais gostámos de ver na Luz, apenas e só pela facada que foi.

Empata-fodas, uns e outros. Mas enquanto uns regateiam o preço das meninas, outros refugiam-se na camaradagem dos amigos; e não há amigo mais fiel que um Portista. Este ano é o ano em que voltámos, todos, a unir esforços pelo bem comum, enchendo estádios de todo o país mesmo quando as coisas correm menos bem. Que os gritos que se fizeram ouvir na Luz – e fizeram-se, e bem; onde anda o inferno, afinal? – não se percam no vácuo, que se mantenham até que, por fim, passemos a ser homens e conquistemos a garota que nos escapa há demasiados anos. A NES não se pede que seja um Zezé Camarinha; basta não ser um Virgem aos 40.